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Sentado tranquilamente ao volante, numa madrugada de ruas vazias e faróis verdes, o vento no rosto, a velocidade alta , as luzes da cidade e a lua cheia no céu, um cigarro queimando nos lábios. Sentia-se como se estivesse voltando para casa depois de uma infinita e dolorosa jornada. Uma música toca no rádio do carro, não importa, ele apenas segue reto pela estrada, sem olhar pelo retrovisor, está sozinho, sem olhar para os lados. Mais uma tragada no cigarro, mais uma pisada no acelerador. Mas a noite é tão noite e a estrada escura é tão perfeita e tão deserta e inimaginável, que ele só se lembra que não está sonhando quando vê pela frente o primeiro farol vermelho. Quando solta o acelerador e pisa no freio ele sente que tem que enfrentar a realidade, parar de fugir. Um olhar jogado de relance para o banco do passageiro, onde seu celular está jogado. Na tela o aviso de que há uma mensagem não lida. Foda-se a mensagem não lida. Ele odeia telefone, odeia mais ainda celulares, e, mais do que tudo, odeia recados em caixa postal. Não há nada que preste após o sinal. Por isso ele passa a mão pelos cabelos, um gesto aflito, enquanto pensa no que fazer. O carro pára e ele estende a mão para o celular. Não quer ouvir a mensagem. Mensagens de caixa postal são falsas e impessoais. Ele disca um número, espera, ouve o irritante barulho "bip, bip, bip...". Ocupado. Desliga o celular e o joga de qualquer jeito no banco. O cigarro está acabando e ele o joga pela janela. O farol abre. Pé no acelerador, mais um cigarro sendo aceso, velocidade aumentando, lua cheia, uma musiquinha no fundo. Está tubo bem. Pelo menos até o próximo farol vermelho.